

O livro nos evidencia que não sabemos quem somos, não sabemos por que vivemos e superestimamos a nós mesmos enquanto repetimos mecanicamente os mesmos erros de sempre.
A vida que levamos é mecânica, automática, inconsciente, condicionada por estados interiores que desconhecemos. A revolução começa quando nos voltamos para dentro e passamos a observar, enfrentar e desintegrar tudo o que nos aprisiona psicologicamente.
O que determina nossa existência não são apenas os fatos externos, mas sim o nosso nível de ser: o nível em que nos encontramos internamente — os impulsos que mais nos movem, as emoções que mais se repetem, os desejos e intenções que nos governam e a forma típica como reagimos ao que nos acontece, ao que nos faz sofrer e àquilo com que nos identificamos.
A pobreza, a desgraça, os conflitos e as repetições de sofrimento estão enraizados em ódio, cobiça, luxúria, inveja, ira, orgulho, preguiça, gula e tantos outros elementos que carregamos, e que atraem inevitavelmente circunstâncias em sintonia com eles. O exterior é reflexo do interior e qualquer mudança duradoura exige uma transformação radical no nosso nível de ser, não apenas ajustes superficiais de conduta.
Não há progresso real só porque o tempo passa ou porque a ciência e a técnica avançam. Continuamos sendo basicamente os mesmos bárbaros de sempre, apenas com ferramentas mais sofisticadas para expressar a mesma crueldade, ambição e decadência. Somos “animais intelectuais”, vaidosos, frágeis, convencidos de nossa própria grandeza, mas escravos de impulsos e estados internos que não controlamos. Vivemos presos à horizontal da vida — idade, carreira, família, dinheiro, status — sem quase nenhum contato consciente com a vertical, que é o caminho dos rebeldes, o caminho da transformação do nível de ser.
A vida é um ginásio psicológico. Cada acontecimento — cada situação de perda, humilhação, ofensa, sucesso, elogio, fracasso — é matéria-prima para que observemos nossas reações, pensamentos, emoções, sentimentos, percebamos nossos estados interiores equivocados e trabalhemos sobre eles. Não são os eventos em si que geram sofrimento, mas a forma como reagimos: o ciúme que nos devora, a ira que explode, a autocomiseração que nos paralisa, a vaidade ferida que se vinga, o orgulho que não aceita ser questionado. Quando enxergamos isso, vemos que a verdadeira arma na vida não é a esperteza externa, mas um estado psicológico correto diante de cada situação.
É importante aprendermos a não nos identificar com os dramas da vida, a vê-los como filme e a permanecer como observadores, lembrando que tudo passa e que o que realmente importa é o estado a partir do qual agimos a cada momento.
O fato de termos um corpo, um nome, uma história, memórias, hábitos, costumes, nos dá a ilusão de que somos uma só pessoa, estável e coerente, com uma única vontade; porém, quando começamos a nos observar com sinceridade, vemos que somos uma multiplicidade de eus.
Em nós convivem milhares de desejos, opiniões, reações e tendências contraditórias: um eu que quer buscar o espírito e outro que quer o prazer imediato; um eu que perdoa e outro que guarda rancor; um eu que promete disciplina e outro que sabota tudo.
A cada momento, um “eu” toma o comando, usa nosso corpo, nossas emoções e nossa mente, fala em nosso nome e depois cede lugar a outro eu, que pode pensar e sentir o oposto. Não temos verdadeira individualidade, nem vontade ou mente unificada. Estamos fragmentados internamente.
Enquanto acreditarmos que somos um só, não teremos motivo para mudar. A auto-observação séria nos obriga a nos dividir em observador e observado, a reconhecer que “o que pensa”, “o que sente”, “o que deseja” em determinado momento não é “eu inteiro”. Quando, por exemplo, sentimos uma onda de inveja, ciúme ou raiva, passamos perceber que algo usa nossa mente e nosso corpo, e algo precisa ser conhecido, julgado e eliminado, em vez de justificado.
Este processo exige que deixemos de nos justificar pelo temperamento, pela herança ou pelo contexto, e assumamos que carregamos um conjunto de agregados psíquicos que precisam morrer para que algo puro em nós possa viver.
Por trás de todos esses eus, existe a Essência: o que há de mais puro, consciente e verdadeiro em nós. Quando crianças, vivemos um tempo em que essa Essência se expressava com mais transparência, antes que a personalidade se formasse completamente e os eus tivessem como se manifestar.
A Essência é a nossa realidade mais íntima, a semente de sabedoria e amor, é aquilo que pode conhecer a verdade diretamente e captar a vida sem deformá-la. Mas ela se encontra aprisionada, enfrascada dentro do ego, sufocada por nossos defeitos.
Temos apenas uma pequena porcentagem de consciência livre. Para que a Essência cresça, o livro defende que não basta tempo, leitura ou boas intenções; é necessário trabalho consciente e padecimentos voluntários, isto é, enfrentar deliberadamente o desconforto de ver e morrer para os nossos defeitos.
Vamos entendendo que o caminho proposto é uma psicologia de morte e nascimento interior. Morte do ego, do eu pluralizado, nos seus inúmeros aspectos. Nascimento da Essência livre, que passa a manifestar beleza interior, amor real, inteligência superior, uma lucidez que não depende de crença.
O método para isso é observar, julgar, eliminar. Primeiro, observamos com atenção os movimentos do ego no cotidiano, sem justificá-los; depois, analisamos, julgamos internamente, compreendendo a inutilidade, a mentira e o dano que aquele “eu” nos causa; por fim, oramos e trabalhamos pela sua dissolução, permitindo que a Divina Mãe o desintegre. A mente não tem poder para dissolver o “eu”, somente uma realidade superior à mente pode eliminar um defeito.
A chave desse processo está na auto-observação constante. Observamos como quem olha, no instante, o que sente, pensa e faz, em relação direta com os acontecimentos. Passamos a perceber que vivemos muito mais no mundo interior do que imaginávamos: em nós se desenrolam diálogos internos, justificativas, queixas, fantasias, ressentimentos, comparações, canções psicológicas em que sempre nos colocamos como vítimas e culpamos os outros.
Esse diálogo interior são os “eus” falando entre si, alimentando conflitos, renovando velhos sofrimentos e impedindo o silêncio necessário para a consciência despertar.
Existem dois mundos: o exterior, que percebemos pelos sentidos, e o interior, que só conhecemos pela auto-observação. Toda mudança autêntica acontece no mundo interior; o conhecimento externo, por mais vasto que seja, não nos transforma.
Quando começamos a explorar esse mundo íntimo, descobrimos uma paisagem complexa: estados de alegria, tristeza, esperança, medo, orgulho, superioridade, inferioridade, ressentimento, desejo de vingança; percebemos que muitos eventos dolorosos nasceram de estados equivocados, não apenas de causas externas.
Viver conscientemente significa aprender a combinar, com sabedoria, cada acontecimento externo com o estado interior correto, sem deixar que as circunstâncias nos arrastem.
A vida não é apenas uma sequência de fatos, mas uma sequência de estados, e a história real da nossa existência é a história dos nossos estados de consciência. A crença de que “se tal coisa não tivesse acontecido, seríamos felizes” perde força quando percebemos os padrões de reação se repetem em situações diferentes: mudam os cenários, os personagens, mas a nossa maneira de sofrer é sempre a mesma. Essa repetição — retorno e recorrência — mostra como vivemos presos a hábitos psíquicos e mecânicos. Enquanto não modificarmos os estados que originam essas recorrências, continuaremos atuando como marionetes da vida, convencidos de que somos autores, quando na verdade somos movidos por fios invisíveis.
É necessário assumirmos total responsabilidade pelo que nos acontece em nosso interior. É fácil culparmos o governo, a família, o cônjuge, o trabalho, a crise, a infância, o karma, qualquer fator externo, mas isso apenas reforça nossa posição de vítima e alimenta a canção psicológica. Quando reconhecemos que os estados interiores equivocados nos colocam nas situações mais dolorosas e nos fazem reagir da pior forma, entendemos que somos responsáveis pelas desgraças que vivemos. A mudança real começa quando paramos de nos justificar, paramos de nos lamentar e começamos a trabalhar sobre o que sentimos, pensamos e desejamos, em vez de esperar que o mundo se adapte a nós.
Um dos aspectos mais importantes dessa psicologia é a análise de nossas bases, das estruturas invisíveis sobre as quais apoiamos nossa identidade. Cada um de nós “se sente alguém” através de: títulos, bens, dinheiro, status, papel social, fama, prestígio religioso, imagem de “pessoa boa”, “pessoa sábia” ou “pessoa espiritual”. Isso nos dá sensação de segurança. Porém, estas bases externas são muito frágeis, instáveis, impermanentes. Estão fora do nosso controle. Basta uma perda, uma crítica, uma mudança de posição ou uma falência para que toda essa estrutura desabe e nos sintamos perdidos, desesperados.
Estas bases ilusórias alimentam o orgulho, a vaidade e o amor próprio, que são grandes inimigos do trabalho interior. Quando nos sentimos superiores — mais inteligentes, mais puros, mais morais, mais sofridos, mais “conscientes” do que os outros — fortalecemos um ego.
Em contrapartida, aquele que reconhece a própria nulidade e miséria interior, aquele que não se apoia em base alguma, que vê claramente suas falhas, fraquezas, é mais receptivo a mudanças reais.
As situações em que nos sentimos ofendidos, machucados, humilhados ou desconsiderados são fundamentais para esse autoconhecimento, porque revelam exatamente em que base estamos apoiados. Quando algo nos fere, podemos perguntar: o que em nós se sente ferido? Que imagem de nós mesmos está sendo ameaçada? Que apoio estamos perdendo? Ao observarmos essas reações, descobrimos as bases psicológicas ocultas — a necessidade de sermos reconhecidos, admirados, temidos, obedecidos, amados de determinada maneira, vistos como justos ou importantes.
O trabalho espiritual exige abandonarmos as bases ilusórias, dissolver os eus que vivem delas e deslocar o centro de gravidade para o Ser, que não depende de elogios, posses ou posições. Assim, criar uma “nova vida interior” é, em grande parte, mudar as bases: sair do apoio nas aparências e construir uma sustentação silenciosa, enraizada na consciência desperta, que não se abala com as mudanças exteriores.
As falsas imagens que fabricamos de nós, de sábios, santos, especiais, escolhidos, vítimas incompreendidas, nos impedem de ver a nossa real condição, de reconhecer nossas contradições, de aceitar nossa realidade psicológica e de nos mover em direção a uma transformação radical.
Enquanto estivermos presos às fantasias sobre quem somos, qualquer trabalho interior será superficial, porque estaremos sempre defendendo uma ilusão. Enfrentar essa fantasia é doloroso, mas necessário para que possamos construir uma individualidade verdadeira, baseada em consciência e não em autoimagem.
Nenhuma transformação acontece sozinha, nem por meio apenas de crenças, leituras, ritos ou boas obras exteriores. Ela exige um trabalho psicológico intenso, de momento a momento, usando a vida como um laboratório. Quando passamos a nos observar em situações concretas — no trânsito, em casa, no trabalho, nas relações, no uso do dinheiro, da palavra, da sexualidade —, percebemos com clareza os eus que nos dominam e o quanto somos mecânicos. Só então surge em nós uma vontade mais séria de morrer para esses eus e de nascer para algo novo, mais silencioso, lúcido, compassivo.
Enquanto quisermos o trabalho num dia e no dia seguinte nos deixarmos devorar pela vida, nada pode realmente mudar. Esta transformação exige continuidade de propósito, não basta nos entusiasmarmos por um tempo e depois abandonarmos o trabalho. É necessário formarmos em um centro de gravidade permanente, que nasce de uma decisão profunda de mudar e que persiste até que alcancemos a meta.
Este trabalho não se trata apenas de “sermos mais equilibrados”, mas sim de libertarmos a consciência. Ao dissolvermos os agregados psíquicos, abrimos espaço para que nosso Ser, nossa realidade íntima, superior, se manifeste, trazendo uma sabedoria que não é intelectual, um amor que não é sentimentalismo.
Quando colocamos isso em prática, a vida deixa de ser apenas um drama pessoal e passa a ser uma escola de despertar, em que cada dor e cada alegria são oportunidades de ascender um degrau na escada dos níveis de ser.
Se entendemos que o exterior é reflexo do interior, então não podemos mais nos esconder atrás de desculpas e justificativas. Precisamos escolher se queremos continuar como a massa, repetindo dramas de forma mecânica, nos justificando e culpando o mundo, ou se queremos ser rebeldes psicológicos, assumindo a responsabilidade de transformação através de um trabalho íntimo de nos observar, nos perceber e morrer para tudo que nos mantém presos, identificados, inconscientes, adormecidos.
Psicologia Revolucionária é um chamado para uma transformação radical do nosso modo de ser. Ou morremos psicologicamente para tudo o que nos mantém inconscientes e adormecidos, ou continuaremos sendo como a massa, arrastados pela vida.
Por Fabio Balota
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