

Deus vive e pulsa dentro de nós como sabedoria e como amor. Como Pai, Ele é a luz que pensa e ordena; como Mãe, é o fogo que sente e abraça. Quando abrimos o olho da mente, encontramos o Pai; quando abrimos o templo do coração, encontramos a Mãe. Tudo o que chamamos de vida, de busca, de dor e de alegria não é senão o esforço desse Pai e dessa Mãe para nos despertar.
O amor não é desejo disfarçado nem capricho sentimental. É uma força oculta que se acende num olhar, num perfume, num gesto, e põe todo o nosso interior em movimento. Às vezes basta um lenço perfumado, uma carta, uma flor, uma palavra simples, e, no fundo da alma, algo começa a queimar como um fogo que não sabemos nomear, mas que reconhecemos como presença da beleza, do divino. O amor é fogo que consome, vinho que embriaga, angústia deliciosa que não cabe em definição nenhuma.
Chamamos de Matrimônio Perfeito a união de dois seres em que esse amor se realiza plenamente. Não é um casamento no papel, fórmula, conveniência ou fuga da solidão. O matrimônio verdadeiro é a fusão de dois corações que se adoram em todos os planos. Quando pensamento, sentimento e vontade caminham juntos, quando o que um busca interiormente é o mesmo que o outro busca, quando há afinidade de pensamentos, de ideal, de conduta, então podemos falar de Matrimônio Perfeito. Casamentos em que não há amor, casamentos que são negócios, acordos de interesse baseados em dinheiro, posição ou medo, dessacralizam o matrimônio.
A vida conjugal é uma arte delicada de renúncias mútuas: deixar de querer ter sempre razão, refrear o impulso de ferir, renunciar ao hábito de guardar ressentimento. Cada vez que um dos dois escolhe compreender em vez de reagir, calar uma palavra dura em vez de lançá-la, proteger em vez de acusar, o lar deixa de ser simples casa e começa a se tornar uma expressão do templo interno.
A alma ama, abençoa, se sacrifica, deseja a felicidade do outro mesmo que não seja ao seu lado. Mas, infelizmente, as pessoas não sabem amar; confundem amor com desejo. Duas pessoas se encontram, surge a paixão, promessas e juras florescem na boca, depois que a curiosidade se sacia, aparecem o tédio, a irritação, a vontade de fuga. O “amor eterno” se transforma em cansaço, a adoração vira reclamação. Isso mostra que não era amor, era apenas um “eu” desejoso, procurando um brinquedo novo. O “eu” se apaixona, jura, promete, exige, mata, se mata.
É justamente no ponto mais delicado, onde desejo e amor se tocam, que entra o sexo. O sexo é a principal porta da vida espiritual. Quando um homem e uma mulher que se amam se unem, formam, por um instante, um Elohim, um ser andrógino com poder de criar. Nesse ato, forças cósmicas descem: correntes elétricas sutilíssimas atravessam o sistema nervoso, o fogo se agita na base da coluna, os centros ocultos do corpo se preparam para despertar. Nesses momentos decidimos se continuamos animais ou se nos tornamos Deuses.
A constante perda da energia sexual é o que chamamos de fornicação. Por esse ato, repetido ao longo da vida, debilitamos o sistema nervoso, enfraquecemos a vontade, escurecemos a mente, alimentamos o “eu”. A força que poderia nos iluminar é desperdiçada com prazeres passageiros. Assim, nos afastamos cada vez mais da possibilidade de nos conectarmos com nossa alma.
Caímos através do sexo e precisamos nos levantar através do sexo. A chave está no Arcano A.Z.F., na Magia Sexual. Não devemos negar ou fugir do ato sexual, também não devemos reprimir o corpo. Ao contrário, devemos viver plenamente o amor, o abraço, o beijo, o calor. Mas, antes do momento em que a natureza pediria o espasmo e a perda da energia, nós paramos. Frearmos o impulso, mantemos a união, respiramos, transmutamos. A energia que ia se perder é conduzida para dentro e sobe pela medula espinhal como serpente de fogo. Essa serpente é a Mãe Divina, Kundalini, despertando e ascendendo vértebra por vértebra.
À medida que a Serpente Ígnea sobe, ela vai abrindo as sete igrejas do Apocalipse, situadas ao longo da coluna e na cabeça. Em Éfeso, no cóccix, desperta a força vital primordial; em Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia, vão despertando capacidades de sentir e conhecer mundos sutis. A cada centro aberto, percebemos algo novo: visões, sons internos, intuições, experiências fora do corpo. O mundo deixa de ser apenas tridimensional. O espaço se revela em quatro dimensões, as cidades ganham profundidade desconhecida, os templos ocultos se tornam acessíveis. Não se trata de fantasia, é uma mudança objetiva do aparelho psíquico.
A energia sexual transmutada vai organizando os corpos internos. Com o fogo, forjamos o corpo astral solar, um veículo de emoções superiores com o qual podemos nos movimentar conscientemente no mundo dos sonhos. Mais adiante, forjamos o corpo mental solar, que pensa com a luz do Espírito e não com a confusão do raciocínio ordinário. Depois, o corpo causal, ou corpo da vontade consciente, que nos permite agir de acordo com o Ser interior e não com os caprichos do “eu”. Sem esse trabalho, somos apenas sombras que tomam corpos por alguns anos e depois os perdem. Com esse trabalho, forjamos corpos que são veículos permanentes de expressão nos diferentes planos.
Nada disso faria sentido sem a morte do “eu”. A energia que transmutamos não deve servir para inflar a vaidade mística, nem para reforçar a luxúria em níveis sutis. Precisamos observar com sinceridade a ira, a cobiça, o orgulho, o ciúme, a inveja, o ressentimento, a preguiça. Ver como pensam, como sentem, como reagem. Cada vez que compreendemos um desses “eus”, clamamos à Mãe Divina para que o pulverize com esse fogo que sobe. A dissolução do ego é lenta, trabalhosa, dolorosa. Mas sem ela a cristificação não é possível. O conjunto das pequenas mortes cotidianas é o que permite que a alma vá ocupando seu lugar.
Em vez de fugir dos atritos da vida conjugal ou de sonhar com um casamento sem provas, precisamos aprender a usá-los como laboratório de autoconhecimento e sacrifício do eu. No choque diário entre temperamentos, gostos, hábitos e opiniões, ira, orgulho, ciúme, vaidade e ressentimento saltam e nos dão a oportunidade de vê-los tal como são e assim podemos fazer o trabalho de eliminação.
Cristo não é apenas uma figura histórica, é um princípio universal que se manifestou em muitos grandes seres ao longo das eras. Ormuz, Krishna, Osíris, Fu-Ji, Zeus, Quetzalcoatl, Balder são expressões desse mesmo princípio em povos diferentes. Quando esse princípio crístico desce e se encarna numa alma preparada, temos aquilo que chamamos de Iniciação Venusta. O Cristo se humaniza no iniciado; o iniciado se diviniza no Cristo. A partir daí, vivemos por dentro o grande drama crístico: tentação, pregação, traição, morte e ressurreição, não como história, mas como processos psicológicos profundos.
A Mãe Divina, em suas diversas faces, acompanha sempre esse drama. Ela é Maria, Ísis, Deméter, Ceres, Maya. É aquela que dá à luz o Cristo em nós. É a Serpente de Fogo que sobe pela coluna, abrindo igrejas e dissolvendo “eus”. É a mesma presença que, na Magia Sexual, transforma o casal em ser hermafrodita divino. Sem ela, não há fogo, sem fogo, não há mudança de consciência. Sabedoria e amor são as duas colunas do templo interno.
O estudo de religião comparada revela que, por trás de símbolos, mitos e dogmas, se esconde o mesmo drama da queda e da redenção pelo sexo e pelo Cristo. A Bíblia inteira, do Gênese ao Apocalipse, fala do sexo e do Cristo ocultamente. O fruto proibido, a serpente, a expulsão do Éden, a cruz, a ressurreição – tudo remete ao uso da energia sexual e à encarnação do Cristo. Nas tradições dos povos antigos, a Arte Régia – pirâmides, esfinges, monólitos, hieróglifos, esculturas de Deuses – guarda, em linguagem simbólica, as emoções místicas e os conhecimentos que não cabem em palavras correntes. Há apenas uma única Religião Cósmica, que se expressa em formas diversas.
Mas, a realidade não é apenas luz. Existe uma hierarquia de forças que trabalha para desviar o homem do caminho da cristificação. Os magos brancos trabalham com castidade científica, sem a perda de energia. Os magos negros trabalham com a perda de energia em seus ritos sexuais. A batalha entre luz e trevas se decide no sexo. Cada vez que um homem ou uma mulher escolhe transmutar, alinha-se, mesmo sem saber, com as forças da luz. Cada vez que escolhe desperdiçar sua energia e se afundar na luxúria, alinha-se com as forças das trevas. Não é questão de crença, é questão de prática.
Podemos dividir didaticamente a infra-sexualidade em duas grandes correntes: Lilit e Nahemah. Lilit representa o ódio ao sexo e as atitudes que atacam diretamente a vida: abortos perversos, infanticídios, certas degenerações extremas. Nahemah representa a beleza sedutora que conduz ao adultério, à destruição de lares, à profanação do Matrimônio Perfeito. A humanidade oscila entre moralismos doentios e aversão ao sexo, de um lado, e culto à luxúria, pornografia e banalização da infidelidade, de outro. Em ambas as tendências, a energia sexual é mal utilizada; é dirigida para baixo e para fora, alimentando as paixões, o ego e o apego ao mundo material. O caminho digno é aquele em que o sexo é vivido como amor sagrado, no matrimônio legítimo, sem perda de energia.
Para compreender como passamos de um estado de inconsciência a um estado de percepção superior, precisamos examinar mais de perto o nosso processo de conhecer. Toda sensação é uma troca na psique. Cada som, cada cor, cada toque altera algo em nós. Essas sensações ficam registradas em duas memórias: uma animal, que guarda o que vivemos no físico e outra espiritual, que guarda o que experimentamos nas dimensões superiores. A partir dessas lembranças, formamos percepções. Quando agrupamos várias sensações e as projetamos num objeto, dizemos: “esta árvore é verde, alta, tem tal cheiro”; no astral, fazemos o mesmo com seres e formas sutis.
Das percepções, nascem os conceitos. Sem percepção, não há conceito. Sem conceitos, não há palavras. A linguagem é a expressão do conceito. Quem fala dos mundos internos sem percebê-los distorce a realidade, ainda que não queira. As emoções místicas mais elevadas não podem ser ditas em linguagem comum. Somente a Arte Régia – a linguagem simbólica da natureza e dos templos antigos – consegue expressar algo dessas alturas.
À medida que despertamos os chakras, o aparelho psíquico muda. O espaço, que antes víamos como tridimensional, mostra-se tetradimensional. O mundo ganha profundidades e transparências. Ao mesmo tempo, o despertar elimina elementos subjetivos das percepções, como opiniões, projeções, ilusões. O que chamamos de objetivo não é o material, mas o espiritual, o real. No começo, o influxo de novidades psíquicas pode confundir. Percebemos coisas novas, mas não sabemos ainda as definir com clareza, falta equilíbrio conceitual. Por isso é necessário educar a mente para acompanhar a expansão da consciência.
A disciplina esotérica tem o objetivo de mudar a consciência. Saímos da consciência simples, instintiva, própria dos animais. Passamos à autoconsciência individual. E, a partir daí, buscamos a Consciência Cósmica. Quando a Consciência Cósmica começa a despertar, sentimos algo como um clarão interior, um brilho que não é deste mundo, e a mente entra em uma nova ordem de ideias. Esse é um estado nirvânico. Nesse momento, passamos a participar, de forma consciente, da comunidade de seres que vivem para ajudar e orientar a humanidade. Mas mesmo dentro dessa comunidade existem diferentes níveis de consciência, muitos graus de realização, que vão de um novo iniciado até Anjos e Arcanjos, como nos degraus da escada de Jacó.
O Matrimônio Perfeito reúne os três fatores de revolução da consciência: morrer, nascer e sacrificar-se pela humanidade. Morrer é dissolver os múltiplos “eus” que habitam em nós. Nascer é forjar os corpos internos e expressar a natureza do Ser. Sacrificar-se pela humanidade é viver o serviço desinteressado, ajudando, orientando e consolando aqueles que necessitam, ainda que seja em silêncio.
Ninguém chega a esses níveis de consciência sem santidade. Ninguém chega à santidade sem amor. A forma mais elevada de amor se vive na Magia Sexual. Quando homem e mulher, verdadeiramente enamorados, se unem sem perda de energia criadora, se tornam um só ser, se tornam um hermafrodita divino. A Magia Sexual fornece o fogo de que precisamos para nos elevarmos à Consciência Cósmica. A meditação interna orienta esse fogo. A santidade abre espaço para que ele se estabeleça. Aqueles que se aproximam desse estado começam a ver o mundo como ilusão e se entregam à busca do Real.
Resumo do livro “O Matrimônio Perfeito” por
Fabio Balota
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A Grande Rebelião é um chamado para morrermos para tudo o que somos psicologicamente hoje e nascermos como algo totalmente diferente. O verdadeiro problema do mundo é o nosso […]
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