


Quando falamos em compaixão, pensamos em bondade, sensibilidade, generosidade. Pensamos em uma coisa definida, em um conjunto de virtudes, comportamentos, emoções, sentimentos que definem esse sentimento.
Porém, como em tudo, existem diferentes níveis. Existe uma forma mais maculada e outra mais pura; uma mais distante e distorcida e outra mais próxima da compaixão em si mesma.
Um primeiro nível é a compaixão que se disfarça de bondade, mas é apenas sentimentalismo. Nesse nível, a pessoa está mais interessada em se sentir bem do que em realmente ajudar o outro. Esse modo de sentir é uma tentativa de aliviar a culpa, a angústia diante da dor alheia, o desconforto ao ver sofrimento. Como nesse nível estamos muito voltados para fora e a dor do outro nos incomoda, queremos eliminar essa dor, queremos fugir.
Desde a publicação do livro O Matrimônio Perfeito, em 1950, o Mestre Samael iniciou um trabalho de divulgação, enviando cópias de suas obras para diversos grupos esotéricos (lojas maçônicas, centros teosóficos e rosacruzes); primeiro na Colômbia e Venezuela, e mais tarde para todos os países da América. Logo surgiram alguns interessados pela Gnose na América Central; foi assim que iniciou-se, igualmente, o contato com Francisco Propato, na Argentina.
No Brasil, um grupo de quatro maçons paulistas, sob a liderança de um capitão do exército, o sr. Hélio Prado Nogueira, iniciou-se uma troca de correspondências com o Mestre Samael, no México, em 1960. Samael enviou diversos outros materiais, e nomeou o sr. Hélio como o primeiro delegado geral da gnose no Brasil. Em seguida instalou-se uma primeira sala de estudos, na Rua Riachuelo, bairro da Sé, em São Paulo. Esta sala logo mudou-se para a Vila Mariana. Neste endereço eram oferecidas palestras todas as quintas-feiras, e realizados os rituais aos sábados e dias 27. Mais tarde a sala de estudos mudou-se para o bairro do Cambuci; nove anos depois retornou a funcionar na Vila Mariana.
Logo foram estabelecidas salas nas cidades de Campinas e Bauru. Em 1963 houve um primeiro conflito sério dentro dos grupos, e ocorreu a primeira expulsão de membros, seguindo a orientação do Mestre. Um novo grupo surge em Santos, e vai ser nesta primeira fase um dos grupos mais influentes; eles passaram a publicar uma revista mensal, e lograram que uma rua da cidade de Praia Grande fosse renomeada como Rua Samael Aun Weor.
O Brasil fica sob o comando de Júlio Medina, então nomeado Comendador para toda a América do Sul. Este envia ao Brasil o primeiro missionário internacional, o colombiano Luiz Romero e sua esposa, Paulina. Este substitui o sr. Hélio na função de delegado geral, mas não teve sua autoridade reconhecida por todos os grupos. Um grupo de Curitiba, dirigido por Saul de Calzer e chamado Mansão Gnóstica, rompe com a direção nacional em São Paulo e passa a publicar por conta própria os livros gnósticos e a oferecer um curso de gnose por correspondência para todo o pais.
Os conflitos entre os grupos provocaram a vinda do comendador em pessoa, Julio Medina, Mestre Gargha Kuichines, em 1975. Julio reprimiu os descontentes e reforçou a autoridade do missionário Luiz Romero. Também logrou negociar a reintegração do grupo dissidente de Curitiba.
As desavenças continuaram. Então o Mestre Samael ordenou a vinda de Joaquim Amortegui, Mestre Rabolu, em 1976. Amortegui destituiu Luiz Romero de todas suas funções e o enviou de volta à Colômbia; esteve nos grupos de São Paulo, Bauru, Campinas e Santos; no final do ano enviou ao Brasil seu filho Lucho, que ministrou o primeiro curso de formação de instrutores, em São Paulo. Os instrutores formados por Lucho em breve se espalhariam pelo Brasil. Uma crise entre Júlio Medina e Samael forçou o retorno de Lucho à Colômbia; pouco tempo depois, ainda em 1977, chegou a notícia do falecimento do Mestre.
O Brasil passa a viver, então, os desdobramentos da crise que se abate sobre o gnosticismo mundial; após um período inicial de união em torno da esposa do Mestre Samael, Dona Arnolda, Mestra Litelantes, começam as fissuras e divisões dentro das fileiras gnósticas.
Num primeiro momento foi Joaquim Amortegui quem investiu em assegurar o controle dos grupos brasileiros: entre 1979 e 1982 ele enviou um total de quatro casais de missionários ao Brasil: inicialmente o hondurenho Alfredo Britto e sua esposa. Brito logo entrou em conflito com a direção da gnose em São Paulo, e acabou se estabelecendo no Rio Grande do Sul. Logo depois vieram Jesus e esposa; Efrain Granadillo, Davi Leon e, em 1982, o venezuelano José Millano, que se estabeleceu em Campinas.
A partir de 1982 Alfredo Britto e Millano dividem o controle da Nova Ordem no Brasil; essa situação apenas se modifica com a unificação dos grupos sob a orientação de Joaquim Amortegui e a formação de uma direção nacional, em 1989.
Os demais grupos se alinham com a direção mundial de Dona Arnolda, no México, e constituem a AGEACAC, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Curitiba segue de forma autônoma.
Muito próximo disso estão as pessoas que têm uma autoimagem de bondosas. Elas querem se sentir especiais, mais sensíveis, mais conscientes, mais “humanas”, querem ser vistas, reconhecidas, agradecidas, admiradas. Ficam frustradas, ofendidas, magoadas, ressentidas, quando o outro não corresponde às suas expectativas. Para essas pessoas, o outro é apenas um objeto. A compaixão centrada em nós mesmos é movida pelo medo, pela culpa, pela necessidade de aprovação.
Existe uma forma de compaixão que se confunde com piedade. São pessoas que se sentem superiores espiritual, moral ou intelectualmente e olham os outros como “coitados”, fracos, ignorantes, incapazes.
Há uma outra forma em que a pessoa se identifica com a imagem de compassiva e com fantasias do que é ser alguém espiritual e se torna incapaz de agir, de se posicionar, de ser firme quando necessário. Tem medo de colocar limites, de dizer não, de confrontar atitudes negativas, destrutivas. Tolera tudo, justifica tudo. Teme o conflito. Teme a própria agressividade.
Há também uma compaixão mecânica, marcada pela repetição de frases prontas e vazias, de palavras de conforto sem real sensibilidade, sem disposição para escutar, tocar a dor do outro, permanecer ao lado. Essas pessoas têm pressa de que o outro melhore, se recupere, siga adiante, volte ao “normal”. Querem se livrar logo da situação, não querem ser incomodadas.
Normalmente, todos nós começamos por esses modos distorcidos. No início, nossas virtudes estão misturadas a apego, aversão, orgulho, medo, comparação. Por isso, o primeiro passo é reconhecer onde estamos, nossas virtudes e defeitos, pontos fortes e fracos.
A partir desse reconhecimento, dessa observação, dessa percepção, podemos realizar nosso trabalho de autoconhecimento e ir purificando nossa compaixão, desenvolvendo um sentimento mais maduro, menos maculado, menos distorcido, menos autocentrado.
À medida que diminuímos a identificação com as emoções, podemos sentir empatia pela dor do outro sem nos perdermos nela. Assim, podemos ver, sentir, nos importar, mas conservamos o centro.
Aos poucos, esse sentimento deixa de ser um impulso de consertar a situação e se torna uma abertura. Muitas vezes não há nada a fazer além de estar junto, ouvir.
Porém, quando percebemos que nossa ajuda alimenta dependência, manipulação ou irresponsabilidade, precisamos cortar. Se continuamos dando o que o outro usa para manter o próprio autoengano, então não estamos realmente ajudando. A compaixão exige coragem para dizer não, frustrar expectativas, enfrentar reações, ser firme quando necessário. Em vez de buscarmos proteger nossa imagem de “bonzinhos”, buscamos nosso amadurecimento e do outro, mesmo que tenhamos que passar por situações desconfortáveis. Em vez de buscarmos satisfazer o ego, buscamos o despertar da consciência.
Cada um tem seu ritmo, cada um é atravessado por diferentes experiências, condicionamentos, histórias, conhecimentos, estruturas sociais. Conforme aceitamos essa realidade, paramos de buscar resultados, paramos de cobrar que o outro aprenda, mude ou se desenvolva.
É muito normal que a sensibilidade comece pelas pessoas mais próximas. É fácil sentir empatia pela mãe, por um filho ou um amigo próximo. Mas até se poderia questionar se existe nisso verdadeira compaixão. A compaixão não pode ser seletiva, limitada apenas àqueles que nos interessam, condicionada por apegos, simpatias, afinidades, identificações. A compaixão mais ampla se estende a quem nos desagrada, a quem pensa de forma oposta à nossa, a quem nos magoou. Isso não significa tolerar abuso ou aceitar a injustiça.
A percepção do sofrimento é uma das portas para a compaixão. Conforme percebemos nosso próprio sofrimento, percebemos também o sofrimento do outro. Esse sentimento começa a se desenvolver mais profundamente quando realmente compreendemos, quando realmente percebemos que todos nós sofremos, todos nós envelhecemos, adoecemos, perdemos, erramos, todos nós queremos ser felizes, ainda que alguns tentem de uma forma muito equivocada, muito destrutiva, todos nós carregamos feridas antigas, assim como já ferimos os outros. Somos todos iguais, pessoas comuns, não existe ninguém especial ou superior.
Compaixão não é apenas sentir alguma coisa. Ela se expressa nas atitudes, escolhas, prioridades. Pode se expressar como doçura ou como firmeza, como abraço ou como limite rigoroso, conforme a situação pede. Não é uma fórmula ou um novo padrão mais espiritual.
De um ponto de vista mais unitivo, todos nós fazemos parte de uma mesma vida. O sofrimento de alguém é um sofrimento dessa vida, da qual fazemos parte, então é um sofrimento nosso como um todo.
Os estágios da compaixão são como as estações do caminho espiritual. Na alquimia da compaixão, começamos confundindo esse sentimento com desejo de nos sentirmos bem, de sermos vistos como bons, de fugir da dor. Conforme nos autoconhecemos, separando, analisando e juntando, reconhecendo, purificando e integrando, vamos nos soltando das representações espirituais, atravessando os desconfortos, ampliando os horizontes, rompendo as resistências internas e assim vamos nos aproximando da compaixão em si mesma.
O que chamamos de compaixão elevada não é algo místico e distante; é a capacidade de tocar a realidade da condição humana. Quando avançamos nesse caminho de transformação, nos tornamos mais presentes, mais disponíveis para participar do mundo sem acrescentar ainda mais peso ao sofrimento que já existe.
Por Marcelo Campos
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