

Sim, existe inferno, diabo e karma, não apenas como uma mitologia externa, mas como uma realidade concreta no cosmos e dentro de nós. O que costumamos considerar apenas crença, símbolo religioso ou superstição, na verdade aponta para realidades concretas da natureza, da consciência, do universo.
A percepção comum do tempo é uma ilusão. As horas, os calendários, os períodos, não passam de convenções humanas colocadas sobre a sucessão dos fenômenos. O tempo em si não tem cor, sabor, substância, não pode ser agarrado nem medido como algo real em si mesmo. Vivemos hipnotizados por conceitos subjetivos, acreditando que “o tempo” nos conduz, quando na verdade é apenas a vida se manifestando num eterno agora. É a nossa mente que recorta esse fluxo e o converte em passado e futuro.
Em cada degrau da criação cresce o número de leis que atuam, e com isso aumentam a mecanicidade, a dor e a densidade da matéria. Nas regiões mais elevadas e luminosas reina a única lei, a liberdade plena. Nos mundos inferiores, especialmente nos círculos infernais, o número de leis se multiplica assustadoramente, e com ele se multiplicam o automatismo, a escravidão interior e o sofrimento.
A região em que vivemos é intermediária. O verdadeiro “lugar inferior” são as regiões infernais, onde o número de leis se torna esmagador. O ser humano é controlado por 48 leis, o primeiro círculo infernal por 96 leis e o nono por centenas delas. A chamada “queda” não é apenas moral, mas uma queda na complexidade mecânica, na falta de liberdade, na automatização dos impulsos. Alcançar a liberdade espiritual significa se desvincular de leis cada vez mais numerosas até regressar à simplicidade da única lei.
Tudo o que existe “fora” de nós também existe “dentro” de nós. As infradimensões da Terra não estão separadas do nosso subconsciente e infra‑consciente. Os abismos atômicos exteriores encontram ressonância nos abismos atômicos internos que sustentam nossos impulsos mais sombrios. Os monstros dos pesadelos não são apenas imagens oníricas, mas habitantes efetivos das regiões infernais, com os quais nos conectamos quando certas portas psíquicas inferiores se abrem, sobretudo através de desordens emocionais, sexuais e energéticas. Entrar no inferno não é apenas algo que acontece depois da morte. Podemos estar fazendo isso de forma inconsciente, sempre que nossas vibrações descem a esses níveis e atravessamos as “sete portas infernais” escondidas no nosso próprio ventre.
O inferno não é apenas um lugar de chamas eternas descrito por religiões populares. É o conjunto das infradimensões sob a zona tridimensional, regiões minerais submersas onde se processa a involução da alma. Essas regiões são descritas em nove círculos na obra de Dante, onde cada círculo corresponde a um tipo de estado de consciência e a uma forma específica de cristalização do ego. Os diferentes “infernos” das várias tradições (cristão, nórdico, chinês, islâmico) não são mentiras, mas símbolos diversos apontando para a realidade do reino mineral submerso, sem o qual a própria economia cósmica do karma ficaria sem um contrapeso capaz de deter a expansão indefinida do mal.
Não devemos confundir o diabo com o conjunto dos “eus” psicológicos. O diabo aparece como o princípio luciférico, o divino treinador psicológico que assume a forma de tentação para nos dar a possibilidade de cristalizar virtudes autênticas. Lúcifer não é um monstro externo, mas o fazedor de luz que nos tenta e nos põe frente a frente com os nossos defeitos, para que ao vencê-lo ele mesmo nos dê luz. É a escada para descer, quando usamos mal essa força e caímos em estados cada vez mais densos. É a escada para subir, quando transformamos a tentação em oportunidade de morte do ego e de despertar da consciência. Demonizar a tentação é perder a oportunidade de compreender que sem prova não há virtude, sem confronto não há maturidade da consciência.
O karma é a lei de equilíbrio, que ajusta com rigor matemático cada ação, pensamento e emoção, independentemente das crenças pessoais. Cada queda, cada abuso, cada traição, gera consequências que não podem ser evitadas, apenas transformadas por meio de trabalho consciente, de sofrimento voluntário e de uma mudança real na forma como pensamos, sentimos e vivemos. Quando rejeitamos esse fato, continuamos atuando como “equivocados sinceros”, pessoas cheias de boas intenções, mas completamente cegas para os resultados objetivos dos próprios atos.
O karma não é apenas castigo, mas raras são as almas que, por terem sido realmente bondosas, conseguem repousar nos mundos superiores entre uma vida e outra, recuperando suas forças e colhendo por algum tempo a recompensa de suas obras, para retornar mais dispostas à luta por sua libertação. Isso mostra o lado misericordioso da lei, mas não anula o rigor com que ela freia o mal.
O mal tem um limite, que são os mundos infernais. As almas não caem no abismo por capricho divino, elas caem por esgotarem as existências humanas que lhes foram concedidas em cada ciclo de manifestação, sem aproveitar as oportunidades de despertar. Se, ao longo dessas vidas, não nos decidimos pela autorrealização, terminamos descendo pelos reinos animal, vegetal e mineral, onde ocorre a morte segunda. Ali, o ego é triturado pela própria dinâmica da natureza, a essência é liberada e retorna à superfície para reiniciar uma longa marcha evolutiva desde o mineral até o estado humano. Não se trata de uma condenação eterna, mas de um processo de expiação com limite, além do qual a essência volta a ter novas oportunidades.
À alma são concedidos muitos ciclos na roda do samsara, subindo e descendo entre reinos, até que se defina se haverá maestria ou fracasso. Se, depois de todos esses ciclos, a essência não se autorrealiza, a mônada recolhe definitivamente a essência, abandona o projeto de maestria e permanece para sempre como centelha feliz, mas sem lugar na hierarquia dos seres divinos. Não há obrigação de autorrealização, mas existem consequências.
A crença numa evolução incessante que, pelo simples decurso do tempo, nos levaria à união com o divino é uma ilusão perigosa, pois ignora a possibilidade concreta do fracasso e da queda nos mundos infernais. A lei do movimento contínuo funciona como metáfora e advertência, enquanto o homem não aprender a transformar sua semente em luz, repetirá os mesmos erros em ciclos aparentemente novos. Na roda de samsara, o ego é o material de descarte que a natureza acaba destruindo nos mundos infernais quando nos recusamos a fazê-lo conscientemente.
As mônadas possuem liberdade. Nem todas desejam a maestria. Muitas se contentam em permanecer para sempre na bem-aventurança relativa, mas sem consciência desperta. Quando uma mônada quer a maestria, ela trabalha intensamente sobre a essência encarnada, despertando nela anseios espirituais, inquietações, crises existenciais, sede de verdade. Quando não quer, a essência vive vidas inteiras sem nenhum impulso real para a transformação, presa à rotina mecânica evolutiva e involutiva, e acaba descendo aos mundos infernais sem jamais ter percebido a grandeza da chance que possuía.
A evolução biológica, psicológica ou cultural é apenas um movimento mecânico da natureza, sempre seguido de involução, como subida e descida de uma montanha. Nenhum desses dois movimentos, subir e descer, nascer e morrer, crescer e degenerar, gera por si só iluminação ou libertação. O que rompe esse mecanismo é a revolução da consciência, um trabalho íntimo, deliberado, de auto‑observação, morte do ego e transformação das energias, sobretudo da energia sexual.
Morrer psicologicamente, nascer para uma vida superior e servir à humanidade são três movimentos inseparáveis. Sem eles, não há como cristalizar em nós o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Com a energia criadora podemos criar os corpos existenciais do Ser, os corpos de fogo, com os quais se pode viver conscientemente nos mundos superiores. A transmutação das águas puras da vida no vinho de luz da alquimia sexual é o trabalho de base deste caminho. Sem a prática da magia sexual, a libertação é apenas uma ideia, uma teoria, uma crença morta. Transformar o impulso sexual em força de ascensão e de construção interior é uma verdadeira alquimia. Quando fornicamos, quando desperdiçamos a energia sexual na luxúria, fortalecemos os elementos inumanos e multiplicamos os “eus” que nos arrastam às regiões inferiores da psique e da natureza.
O inferno é ao mesmo tempo uma região objetiva do cosmos e a cristalização subjetiva dos nossos defeitos. O ego é um conjunto de “eus” ou agregados psíquicos, equivalentes aos sete pecados capitais e seus derivados, distribuídos pelos diferentes níveis da mente. Cada um desses “eus” se aloja nos diferentes corpos do homem — físico, astral, mental, causal, da vontade, da alma e do espírito — formando uma malha de níveis onde o eu pluralizado nos escraviza. O inferno interior é um labirinto de “eus”, e o inferno exterior é o cenário onde esses mesmos “eus” se projetam como criaturas tenebrosas.
A Mãe Divina desintegra esses “eus” quando transmutamos a energia criadora e lhe pedimos com sinceridade. Esses elementos indesejáveis não podem ser destruídos pelo intelecto. Por isso precisamos recorrer a uma inteligência superior, capaz de libertar a essência aprisionada utilizando o poder do fogo sexual. O inferno, interior e exterior, é o lugar de onde resgatamos as partículas aprisionadas da consciência, com o auxílio desse princípio feminino.
As pessoas se julgam bem, se veem cheias de boas intenções, profundamente religiosas ou espiritualizadas, porém caminham em direção ao abismo porque não despertaram a consciência. Interpretam livros sagrados com a mente adormecida, multiplicam seitas, discutem doutrinas, mas não têm experiência direta dos mundos internos, não conhecem por vivência aquilo que defendem por crença. Existem ascetas, faquires, penitentes, sacerdotes e devotos que se sacrificam enormemente e, ainda assim, permanecem presos ao eu pluralizado e, após a morte, descobrem que todo o seu esforço, sem a revolução interior autêntica, os conduz apenas ao limbo ou aos mundos infernais.
Até o movimento mais espiritual pode ser uma ferramenta para o ego. A mente é incapaz de reconhecer a verdade, porque ela só se move entre o conhecido e o recordado, enquanto a verdade é o desconhecido que se revela de instante em instante. Assim, podemos citar escrituras, decorar sistemas, pregar moral e, mesmo assim, continuar no mais profundo autoengano, no mais profundo sono da consciência.
A descrição dos círculos infernais é uma cartografia da degradação da consciência. O primeiro círculo, o limbo, aparece como a região dos mortos e, sobretudo, dos ignorantes do mistério sexual, uma espécie de antecâmara onde sombras humanas vagam presas ao passado, repetindo mecanicamente os hábitos da vida que já terminou. A maior parte dos desencarnados passa por ali, e poucos realmente conseguem férias nos mundos superiores antes de reencarnar.
À medida que avançamos para círculos mais profundos, ligados à luxúria, à violência, à fraude e à traição, fica claro que cada queda interior corresponde a uma zona da natureza em que essa energia se converte em ambiente, companhia e destino. A luxúria mecânica se transforma em compulsão sem prazer, que tortura e enoja. Os violentos contra a natureza, contra o próximo ou contra o divino habitam regiões saturadas de dureza e ódio. Os traidores e fraudulentos colhem, em ambientes densos e opressivos, o resultado da duplicidade que cultivaram, vivendo entre sombras que refletem a mentira e a falsidade que carregaram em vida.
A luxúria é um estado de compulsão permanente que, nos mundos infernais, perde qualquer vestígio de prazer e se converte em tortura e asco. A prática sexual desvinculada da transmutação nos empurra lentamente para essa faixa vibratória, onde o instinto domina completamente e a consciência vive escravizada a impulsos elementares. Já a traição aparece como um crime de tal gravidade que, em certos casos, precipita a alma diretamente no círculo mais profundo, enquanto o corpo físico pode continuar vivo, ocupado por um elemento tenebroso, tornando-se um “morto vivo”. Assim, percebemos que certas ações humanas, relativizadas ou até celebradas pelo mundo, pesam de forma devastadora para a alma.
O planeta em que vivemos não é apenas uma massa de rocha e metais. É um organismo que apresenta três aspectos claramente definidos: região mineral meramente física, zona supra-dimensional e zona infra-dimensional, que são os mundos infernais.
Estas zonas se penetram e compenetram mutuamente sem se confundirem, tal como ensina o hermetismo. Na zona supra-dimensional moram Devas, Deuses, Elementais de ordem superior, Hierarquias que trabalham com as forças inteligentes da Grande Natureza. Na zona infra-dimensional habitam almas perdidas e inteligências malignas, tremendamente perversas.
O universo está infinitamente mais habitado e é mais complexo do que supõem os materialistas. Nossa realidade psicológica nos põe constantemente em relação, ora com as regiões luminosas, ora com as zonas tenebrosas, conforme a afinidade vibratória de cada momento.
O verdadeiro problema não é a existência do inferno, mas a nossa ignorância em relação a ele. Vivemos como se fôssemos imunes às consequências dos nossos estados internos, sem perceber que cada raiva, cada inveja, cada luxúria, cada mentira nos alinha com regiões e entidades que respondem exatamente a essas frequências. Em vez de temer um castigo futuro, precisamos reconhecer que já vivemos, em algum nível, as realidades infernais, seja em nossos sonhos, em nossos conflitos, em nossos tormentos. A diferença entre o estado atual e a queda definitiva é apenas a fixação. Aquilo que hoje é intermitente e ainda conta com chances de mudança pode se transformar em um estado permanente quando ultrapassarmos o limite das oportunidades.
Inferno, diabo e karma são nomes para três aspectos inseparáveis de uma mesma pedagogia cósmica. O inferno é o grande laboratório de reciclagem do mal cristalizado, o diabo é o princípio que tensiona a consciência para que ela desperte ou caia, e o karma é a balança que garante que nada se perca, que tudo seja equilibrado. Quando aceitamos esse tríplice aspecto, deixamos de ver a divindade como um tirano que pune e passamos a vê-la como inteligência rigorosa que, mesmo no castigo, busca libertar a essência do erro.
Sim, há inferno, diabo e karma é um chamado ao despertar, que nos confronta com a seriedade da existência e desfaz a ilusão de que basta crer, pertencer a uma seita ou seguir costumes religiosos para alcançar uma salvação. Sim, há inferno, diabo e karma é um chamado para assumirmos a responsabilidade por nossa psicologia, nossa energia, nossos atos, e reconhecermos que todo erro será pago com sofrimento até que nos decidamos por uma transformação real.
Resumo do livro “Sim, Há Inferno, Diabo e Karma” por
Fabio Balota
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