


O Perigo das Cristalizações Espirituais
Quando falamos em caminho espiritual, normalmente pensamos em expansão, abertura, liberdade, fluidez. No entanto, em algum ponto desse processo, quase todos nós, em algum nível, caímos em cristalizações espirituais. Essas cristalizações são endurecimentos, fixações em ideias, práticas, tradições, identidades.
Quando a espiritualidade deixa de ser um caminho vivo e se transforma em um sistema fechado, repetitivo, então passa ser um veículo de adormecimento, passa a dinamizar cristalizações, fechamentos.
A gnose está no novo de cada instante, é fugidia. Quando tentamos segurá-la, ela escapa. A gnose não é uma doutrina, é um sistema aberto. Quando a reduzimos a palavras, rituais ou doutrinas, nós a perdemos. Ela é uma presença viva, e toda tentativa de capturá-la mentalmente cria apenas uma imagem morta.
Os ensinamentos são tentativas daqueles que tiveram experiências de gnose, de explicar suas vivências e ajudar os demais a terem suas próprias experiências, a chegarem a sua própria gnose. Os ensinamentos apontam para verdades, para realidades que precisam ser vivenciadas. Confundir os ensinamentos com a própria experiência leva a cristalizações.
A mente gosta de segurança, e por isso tem a tendência de transformar cada descoberta em algo fixo, uma conclusão, um método. Mas a consciência não cabe em conclusões, ela é um fluxo sem limites. São nossos condicionamentos que a limitam. Se não acompanhamos o fluxo, nós nos afastamos do real e passamos a viver presos à nossa própria representação do sagrado, do real. O conhecimento é um processo vivo, criativo, não é algo que possa ser obtido absolutamente.
As cristalizações se expressam no dogmatismo, no sectarismo, nas identidades espirituais. A vida, o divino, não pode ser contido em nossas crenças, em nossos padrões, símbolos, gestos, rituais.
As cristalizações surgem quando repetimos as mesmas práticas sem presença, apenas porque acreditamos nelas; quando acreditamos que uma ou outra prática é o único caminho; quando defendemos uma tradição ou mestre com rigidez, como se qualquer divergência fosse uma ameaça; quando acreditamos que apenas uma abordagem é a verdadeira, a correta; quando acreditamos que apenas o grupo que participamos conhece a verdade ou interpreta corretamente um ensinamento; quando acreditamos que alguém já ensinou tudo que era necessário; quando acreditamos que basta ler um ou outro livro, ou um certo número de livros.
Quando acreditamos que já sabemos ou quando julgamos tudo com base no que já conhecemos, nós nos fechamos e deixamos de aprender, de escutar, perdemos a capacidade de assombro, de perplexidade, perdemos a sensibilidade.
Raramente percebemos as cristalizações se formando. Continuamos a falar de luz, consciência e libertação, mas fazemos o contrário; falamos de dissolução do ego, mas fazemos tudo que o fortalece; construímos prisões com nossas ideias, criamos separações, divisões, julgamentos. A dissolução aponta para um total desapego, um total abertura, um completo esvaziamento.
A única forma de evitar ou desfazer cristalizações é a vigilância constante. É essencial percebermos quando estamos sendo rígidos, limitados, fechados, resistentes e aprendermos a soltar, a abandonar, a nos abrir. Abandonar não é traição. Somente abandonando nossas ideias, nossas representações é que nos abrimos para outras oitavas de percepção. Espiritual é estar sempre disponível para o novo, mesmo que ele destrua as certezas que construímos com tanto esforço. Espiritual é estar livre de certezas. É a abertura para as incertezas que gera verdadeira segurança. O caminho é viver entre, através e além de tradições, formas, práticas, pois é aí que se encontra a gnose.
Por Fabio Balota
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