


A Causa do Sofrimento
A causa do sofrimento está intimamente ligada ao modo como pensamos e acreditamos nas imagens e ideias que passam por nossa mente. Sofremos, fundamentalmente, por atribuir concretude, realidade absoluta aos pensamentos que surgem quando lembramos, por julgamos ou esperamos algo dos outros e de nós mesmos. Não é o passado, o outro, nem o mundo exterior que determina nosso sofrimento e sim nossa crença nas histórias que nossa mente constrói, nas lembranças e preocupações que insistimos em tomar como verdades absolutas, como a realidade em si mesma. Essa é a raiz da dor psíquica e emocional que carregamos.
Quando estamos em contato com alguém por quem sentimos apreço, amor ou respeito, experimentamos algo belo e harmônico. No entanto, quando surge uma lembrança negativa de alguém, de uma palavra ou ação, imediatamente fabricamos uma história sobre o que aconteceu. Nos apegamos a essa história porque acreditamos que ela traduz a verdade dos fatos. Acreditamos saber o que o outro pensa, o que quis dizer, o significado por trás de ações, gestos, olhares.
O sofrimento nasce da falta de questionamento de nossas interpretações. Aceitamos como verdade aquilo que é apenas uma construção mental, uma projeção de medos, carências, orgulho, condicionamentos. Ficamos tão presos nessas histórias que passamos basear nossa vida por elas.
Assumimos o papel de juízes, avaliando pessoas e situações em nome de uma suposta justiça pessoal, mas essa justiça nada mais é do que projeção dos nossos próprios conflitos não resolvidos. Sofremos porque confiamos mais na história interna do que nos fatos objetivos. Sofremos porque confiamos mais no ruído da mente do que no silêncio do estado de presença. Criamos sofrimentos antecipando novas dores, remoendo supostas injustiças, desejando controle sobre tudo e todos. Vivemos no piloto automático, na identificação com pensamentos.
É importante perceber que todo sofrimento psíquico é causado pela separação entre quem somos e quem pensamos que deveríamos ser, entre o outro real e a imagem que projetamos dele, entre a realidade do agora e a ficção construída pela mente. Enquanto mantivermos essa separação alimentada pela identificação com os pensamentos, pela falta de questionamento, perpetuaremos o sofrimento. Não importa o quanto o outro tenha errado, ou o que a vida nos tenha negado ou tirado, pois a verdadeira dor não é gerada pelo acontecimento em si, mas pela forma como o interpretamos e, principalmente, por nos apegarmos à nossa interpretação, à nossa história, ao nosso ponto de vista.
Quando acreditamos cegamente que alguém nos prejudicou, nos rejeitou ou nos abandonou, nos tornamos presos a essa história. Os sentimentos de mágoa, raiva, ressentimento, tristeza ou solidão não provêm diretamente da ação do outro, mas do modo como reagimos internamente às lembranças e projeções da mente. O sofrimento é uma invenção, alimentada e repetida por nosso diálogo interno. Gastamos muita energia catalogando ofensas e fantasiando desfechos.
Por outro lado, quando diminuímos a identificação com os pensamentos, quando voltamos a atenção para o presente e investigamos sinceramente a origem das nossas emoções, encontramos um espaço de silêncio e compreensão. Nesse silêncio, podemos perceber os equívocos por trás de muitos dos nossos pensamentos automáticos. Percebemos que não somos obrigados a seguir tudo que surge internamente e que a paz está disponível a qualquer momento, basta abrirmos soltarmos da identificação com as histórias, impressões, interpretações.
O sofrimento é uma ilusão criada pela mente condicionada. Não é o acontecimento externo que nos fere, somos nós mesmos que escolhemos nos ferir e justificamos isso com as histórias que construímos em torno do acontecimento. Buscamos consolo em distrações, medicamentos, fugas, mas, enquanto não olharmos para a raiz do sofrimento, o ciclo se repetirá indefinidamente. O que precisamos é de coragem para questionar o que pensamos e acreditamos, especialmente quando há sofrimento. Precisamos investigar sem medo de encontrarmos verdades desagradáveis sobre nós mesmos. Não se trata de negar emoções ou fingir perfeição, mas de encarar que nossa experiência é moldada, a todo instante, por aquilo que escolhemos tomar como verdade. Ao assumirmos a responsabilidade por nosso sofrimento, recuperamos a chance de nos transformar.
O sofrimento nos aponta o que insistimos em negar, em não querer ver. Cada sentimento de dor é um convite para investigarmos o que estamos pensando, que histórias estamos contando, que fantasias sustentamos sobre nós, os outros e o mundo. Ao fazermos isso, começamos a viver mais presentes, mais conscientes. A libertação do sofrimento consiste em reconhecermos a simplicidade desse mecanismo e trabalharmos no processo de autoconhecimento de forma honesta e sincera. Somente assim nos tornamos realmente livres para viver em paz conosco, com os outros e com a própria vida.
Por Fabio Balota
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