

O autocontrole é essencial no caminho espiritual. Podemos acumular conhecimento, rituais, leituras e experiências intensas, mas, se não conquistamos um certo domínio de nós mesmos, continuamos prisioneiros da mente, dos impulsos e das reações emocionais, controlados pelo que os outros pensam e pelos padrões da sociedade. Autocontrole não é uma questão de moral. É o desenvolvimento da vontade, a superação das paixões. É domínio da nossa natureza inferior — corpo, sentidos, impulsos — para que não sejamos arrastados por ela.
Temos muitas vontades, muitos desejos conflitantes, contraditórios. Cada vez que resistimos conscientemente a um impulso, estamos integrando um pouco mais nossa vontade. O autocontrole é o processo de desenvolvimento de uma vontade livre e poderosa, capaz de nos levar a grandes realizações.
Ter autocontrole significa perceber, significa reconhecer o que nos move, os pensamentos, impulsos, emoções, e escolher conscientemente o que vamos fazer, como vamos agir, sem nos identificarmos, sem nos deixarmos arrastar por nada que surja. Isso exige constante auto-observação e vigilância.
O desenvolvimento do autocontrole requer esforço, disciplina. No início, nosso comportamento pode parecer artificial, podemos achar que não estamos sendo nós mesmos. Mas com persistência e observação, vamos percebendo que o que achávamos ser normal era automatismo, mecanicidade, inconsciência. Mais tarde percebemos a diferença que é podermos escolher conscientemente nossas ações e palavras.
Práticas de abstinência como jejum, silêncio ou momentos de solidão são treinos de autocontrole, de vontade. A prática da meditação é um treino importante para tranquilizar e silenciar a mente, criando uma base firme para o autocontrole.
Controle não é sinônimo de endurecimento. Muitos confundem firmeza com rigidez. Acreditam que pessoas com rigidez de hábitos, opiniões e posturas possuem caráter forte. Porém, autocontrole envolve flexibilidade, espontaneidade. Autocontrole não é repetição de regras, padrões, fórmulas. É adaptar-se às situações sem perder o eixo. Para isso, é necessária constante auto-observação, presença, consciência, não identificação.
A tentativa de controlar tudo apenas pela força da vontade gera uma tensão permanente que nos torna ressentidos, hipercríticos e nos deixa exaustos. Isso é repressão, conflito interno. Autocontrole não é apenas segurar impulsos, é estar presente, percebendo o que sentimos sem fugir. Quando começamos a agir a partir de um centro, de um estado de presença, com consciência, a ação se torna uma expressão de clareza, escolha, vontade.
Para agir a partir de um centro é preciso desapego. Enquanto estivermos presos a resultados e expectativas, qualquer frustração irá nos desequilibrar. Desapego é a capacidade de fazer o que é necessário sem nos prendermos aos resultados.
Autocontrole é soltar o desejo de controle das coisas exteriores e desenvolver o controle interior. Não temos como controlar o exterior ou a vida. As únicas coisas sobre as quais podemos ter algum controle são nossos próprios corações e mentes. É aí que deveríamos colocar nossos esforços.
Sem autoconhecimento, qualquer tentativa de autocontrole é superficial. Se não sabemos quem somos, o que realmente queremos, quais crenças e medos nos governam, a tentativa de controle pode acabar reforçando aquilo queremos superar, podendo chegar a orgulho espiritual ou colapso psíquico.
O autocontrole atua como um freio interno que impede que experiências espirituais inflem o ego e que usemos a espiritualidade para nos sentirmos especiais.
Quando admitimos que não temos autocontrole e nem sabemos muito bem o que nos move, estamos no caminho para começar a desenvolver algum autocontrole.
O caminho não é apenas mudar comportamentos exteriores. Tampouco é algo que não muda os comportamentos exteriores. O desenvolvimento do autocontrole caminha junto com o processo de autoconhecimento, assim como o processo de autoconhecimento caminha junto com o desenvolvimento de autocontrole.
Conforme começamos a perceber nossos próprios movimentos internos, as tensões e pressões com as quais temos que lidar a cada instante, impulsos, desejos, hábitos, medos, então compreendemos como é difícil desenvolver o autocontrole e assim nos tornamos mais compreensivos com as dificuldades alheias. Essa compreensão diminui a rigidez moralista e nos abre para uma atitude mais compassiva.
Somente quando formos capazes de permanecer tranquilos independentemente das condições que estiverem surgindo, é que poderemos dizer que temos um pouco de controle. Até então estaremos completamente condicionados, apenas reagindo com comportamentos mecânicos e nossos pensamentos, desejos e emoções é que estarão no controle.
Seguir todos os desejos e impulsos que surgem não é liberdade. A verdadeira liberdade começa quando temos a força de vontade que nos possibilita dizer não a qualquer desejo ou impulso sem nos abalarmos.
O autocontrole não é um fim em si mesmo. É uma ferramenta para uma transformação mais profunda. O autocontrole não é apenas uma virtude entre outras, é a base em que todas as virtudes podem se enraizar e crescer, é a base da vontade livre, da liberdade.
Por Fabio Balota
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