

A busca espiritual normalmente começa de forma séria. Na maioria dos casos, ela começa por causa de algum tipo de crise, uma perda, um esgotamento, uma doença, uma insatisfação profunda, um vazio interior, um chamado interior. No início, não sabemos o que queremos. Apenas sentimos que não queremos viver da mesma forma.
Nesse momento, estamos dispostos a fazer tudo, revemos escolhas, questionamos hábitos, enfrentamos medos. Buscamos leituras, terapias, práticas, cursos, retiros, grupos espirituais.
Normalmente chegamos angustiados a esses grupos, com perguntas reais, sinceras, necessitando de transformação, respostas, acolhimento, orientação.
Porém, da mesma forma que uma pessoa fica fervorosa quando está sofrendo e esquece do Divino, do Sagrado quando o sofrimento passa, quando essa crise, essa angústia passa, ou acabamos nos sentindo consolados, acomodados, a busca esfria, a inquietação inicial se vai.
Nesse momento, ou nos afastamos de tudo e voltamos à nossa vida comum, como era antes, ou ficamos vivendo naquele ambiente por causa do pertencimento, da identificação, das ideias e frases que soam espirituais e confortam a consciência.
Aquele impulso inicial vai sendo abafado, sufocado pelo conforto das rotinas espiritualistas. Em alguns momentos, nós até nos emocionamos, nos empolgamos. Contudo, as perguntas, as inquietudes, não nos movem mais.
Assim, uma busca espiritual que começou de forma sincera, como resposta a um chamado interior verdadeiro, se transforma apenas em algo social. A busca por verdade, libertação, iluminação, se transforma em uma busca por aceitação, pertencimento, passatempo. Os desconfortos da superação, da transformação, das incertezas, são trocados pelo bem-estar. Repetimos ideias sobre autoconhecimento, amor, luz, cura, mas evitamos os confrontos conosco mesmos, com nossos padrões, conceitos, dúvidas, medos. As reflexões conjuntas em busca de compreensões, de aprofundamento, se transformam em bate-papos superficiais sobre espiritualidade.
Passamos a acumular participações, memórias, emoções, mas sem transformações reais. O caminho espiritual se transforma em consumo de livros, encontros e experiências. Tudo isso compõe uma imagem de espiritualista, de alguém “mais consciente”, alguém que “já entendeu certas coisas”, que “está num caminho diferente”. Isso traz uma sensação de valor, de distinção, de sermos especiais, de fazermos parte de algo maior. A espiritualidade passa a ser uma forma sofisticada de fuga.
A falta de vínculos profundos da modernidade também pode nos levar a usar a espiritualidade como um refúgio, como um acessório de personalidade.
Quando os grupos, encontros, instituições, perdem o essencial, deixam de ser espaços de verdade. Se estivermos atentos e nossas inquietudes continuarem vivas, então poderemos buscar um novo grupo. Senão, seguiremos apenas com o social com aparência de espiritualidade.
Numa situação semelhante, pode ser que tenhamos aprendido o que era possível com um grupo e ele não tenha mais nada para nos dar. Se estivemos presos à ideia de que ali estão nossos amigos que caminharam conosco, que construíram algo conosco, se sentirmos culpa de sair para seguirmos nosso caminho, então a fidelidade ao grupo passa a ser mais importante do que a fidelidade às inquietações, à verdade, ao divino e nossa busca se transformará em outra coisa.
A questão não é se participamos ou não de grupos, nem se gostamos ou não de encontros, retiros, rituais. A questão é se existe uma busca real ou não, se existe inquietação, desejo de transformação, sede de conhecimento, de verdade.
Por Fabio Balota
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