

Normalmente as pessoas falam de virtudes, princípios e valores como se fossem a mesma coisa. Mas, cada um é uma coisa, cada um aponta para uma realidade, são experiências diferentes.
De maneira bem geral e inicial, podemos enxergar os valores como nossas inclinações e preferências, os princípios como algo mais racional que busca organizar os valores, e as virtudes como forças da alma.
Chamamos de valores aquilo que consideramos importante, desejável, digno de ser buscado. Cada um de nós carrega um conjunto de valores: liberdade, conforto, segurança, reconhecimento, afeto, verdade, tradição, inovação. Eles surgem da nossa história, da nossa família, da cultura e também das feridas que acumulamos. Os valores estão relacionados com nossa vida afetiva e motivacional, não são necessariamente bons ou maus.
Podemos valorizar a vingança, a dominação, a aparência, o status. Isso também são valores, mas não são valores nobres. Neles não há grandeza de alma, há apenas a ampliação do nosso ego.
Muitos dos nossos valores são véus que encobrem necessidades mais profundas. Por exemplo, dizemos valorizar a “sinceridade”, mas, no fundo, apenas queremos despejar a nossa agressividade sem assumir responsabilidade pelo dano que causamos; afirmamos valorizar a “liberdade”, mas, no fundo, apenas recusamos qualquer compromisso que nos obrigue a crescer e nos confrontar com nossas limitações. Quando investigamos nossos valores, precisamos compreender as bases que os sustentam.
Quando nossos valores são frágeis, eles desabam diante de qualquer abalo emocional ou pressão externa. Seríamos justos, íntegros e fraternos mesmo se não houver ninguém observando? A força de caráter e a firmeza de nossos valores se provam no simples, no difícil, quando não existem vantagens.
É aí que entram os princípios. Os valores indicam o que queremos e os princípios indicam o que devemos. Princípios são construções que usamos para julgar se algo é certo ou errado, digno ou indigno, mesmo quando isso contraria nossas preferências imediatas.
Podemos valorizar a lealdade ao grupo, mas, pelo princípio de justiça, sabemos que encobrir um crime em nome dessa lealdade é errado. A razão avalia os valores diante dos princípios.
Princípios não são apenas costumes. Quando dizemos que toda pessoa merece respeito, que não devemos usar o outro apenas como meio, que injustiça contra um atinge a dignidade de todos, estamos lidando com princípios.
Contudo, entre o que a razão reconhece e o que efetivamente fazemos pode existir uma grande distância. Não basta ter princípios apenas como ideias bonitas na mente ou apenas para aparecer para outros.
É aí que entram as virtudes. Elas não são pensamentos, não são emoções passageiras, não são regras padronizadas. A mesma ação pode ser expressão de uma virtude em uma situação e de um defeito em uma situação diferente.
O valor é o desejo de levantar um peso, o princípio é a técnica correta do movimento, a virtude é a força que executa a ação. Sem essa força desenvolvida, pensamos que sabemos o que é certo, sentimos que gostaríamos de ser melhor, mas na prática cedemos a qualquer impulso, medo ou conveniência.
Quando a virtude está presente, mesmo sob pressão, mesmo quando ninguém está vendo, mesmo quando haveria vantagens em agir errado, ainda assim escolhemos o bem.
As virtudes podem ser desenvolvidas. Cada vez que escolhemos a honestidade em vez da mentira conveniente, fortalecemos um traço de verdade em nós. Cada vez que enfrentamos um medo, nutrimos a coragem. Com o tempo, aquilo que no início exigia grande esforço passa a ser quase espontâneo.
Valores dizem respeito ao que desejamos e preferimos, aos nossos gostos, histórias e dores. Princípios dizem respeito à dignidade humana, à justiça, ao bem comum, à verdade. Virtudes dizem respeito à força interior de encontrar sentido e alegria em agir segundo o que é bom, justo e verdadeiro, mesmo quando isso exige perda, renúncia ou incompreensão.
Valores dizem respeito à questão moral, enquanto princípios se relacionam com a ética. Moral é o nome que damos a esse conjunto de costumes, regras implícitas e expectativas compartilhadas. Ética é o questionamento se aquilo que tomamos como moral é realmente bom, justo e digno.
Admiramos a grandeza de caráter, mas muitas vezes não temos força interior suficiente para viver à altura de princípios mais elevados. Essa insatisfação, esse conflito interno, mostram que a consciência já se abriu um pouco, mas que a vontade ainda é fraca.
No caminho espiritual, os princípios se transformam em ideais inspiradores que nos trazem força, sustentam e orientam. O desenvolvimento espiritual se manifesta no florescimento das virtudes, na expressão da sabedoria, da compaixão, do serenidade, da tolerância, da verdade.
Enquanto virtudes, princípios e valores permanecem confusos, viveremos em conflito, fragmentados, incoerentes. Quando virtudes, princípios e valores se tornam claros e ordenados, passa a existir coerência e integração entre pensamentos, sentimentos e ações; isso traz equilíbrio, paz e tranquilidade.
Por Fabio Balota
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