


Impermanência: A Coragem de Deixar Ir
Nada permanece igual, tudo muda, tudo é impermanente, a vida é um fluxo constante. A impermanência não é apenas mais uma ideia abstrata para aceitarmos racionalmente. Precisamos vivenciar a natureza inconstante de tudo o que somos e experimentamos.
O apego e a aversão nascem da ilusão de que é possível tornar permanente aquilo que, por sua própria natureza, é impermanente, passageiro. O medo, a ansiedade, o sofrimento vêm da tentativa de manter estável o que é instável, da tentativa de preservar situações favoráveis.
Nosso dia a dia é cheio de reações automáticas. Sentimos alegria e reagimos tentando prolongá-la. Sentimos dor e reagimos tentando eliminá-la. Mas tudo se dissolve e se renova a todo momento.
Nem mesmo nossos pensamentos permanecem. Tentamos recordá-los, tentamos controlar o fluxo dos pensamentos, mas notamos que poucos segundos bastam para que tudo fique diferente.
Quando nos observamos, percebemos que não conseguimos nem mesmo controlar por um instante o surgimento e o desaparecimento dos sentimentos ou dos impulsos.
Vivemos uma ilusão de estabilidade. Criamos apegos a pessoas, papéis, títulos, funções, imagens que gostaríamos de preservar indefinidamente. Não queremos que nada mude. O medo das mudanças leva à insegurança. Todas as formas de apego ocultam e revelam a negação da impermanência.
Nossa resistência à impermanência se expressa nos mais simples hábitos do dia a dia. Nos padrões de consumo, na resistência a novidades, no apego às tradições
Tudo termina a cada instante. Cada experiência, cada segundo, cada pensamento, cada sensação, tudo termina para que algo novo comece. O passado não volta, o futuro é sempre incerto. Somos como viajantes numa estrada que nunca se repete.
Quando compreendemos a impermanência, percebemos que sofrer pelo apego pelo que se foi é inútil, percebemos que qualquer projeto, sonho ou expectativa só se realiza no agora, e que os futuros são possibilidades.
Abrir-se para impermanência exige coragem, requer que abandonemos a ilusão de controle, que admitamos nossa fragilidade. Somos parte de um fluxo contínuo. Todos os nossos esforços para garantir estabilidade são vãos.
Não precisamos carregar o peso de identidades rígidas, de papéis sociais, de títulos e nomes que acreditamos nos definir.
Enquanto a busca de identidade está voltada para fora, nos identificamos com os papéis de filhos, pais, profissionais, religiosos, espiritualistas, amigos, estudantes, vencedores, derrotados. Toda identificação é passageira e carrega em si a semente do sofrimento. Quando alguém perde um emprego, rompe um vínculo, envelhece, adoece, muda de ambiente, as bases e a falsa identidade se desfazem.
Porém, ao invés de buscar algo mais profundo, algo em nós que não muda e não é afetado pelas mudanças, nós buscamos segurança, buscamos ser alguém, buscamos.
Aceitar o fluxo da vida é aceitar a impermanência. Nossa paz interior não está no controle do tempo ou dos acontecimentos, mas na maneira como nos relacionamos com cada instante. Quem perde seu instante, perde sua vida.
Quando compreendemos a impermanência, valorizamos mais cada pessoa, cada experiência, sem a ilusão de que permanecerão para sempre. A impermanência nos leva a abrir mão de exigências, aceitando, acolhendo tudo e todos.
Apego e dependência não são amor. Uma pessoa aprisionada quer aprisionar os outros. Uma pessoa livre quer libertar os outros. Quando não nos identificamos, quando compreendemos a impermanência, quando nos desapegamos, respeitamos os outros, seus desejos, gostos, direitos. Então existe amor verdadeiro, sensibilidade, compaixão.
Abrir-se para impermanência exige entrega e confiança. Não existem certezas. Não existem respostas definitivas, absolutas. Aprendizado e conhecimento são processos vivos, contínuos, não existe um fim, sempre existirão dúvidas e inseguranças.
A impermanência, a incerteza, a aceitação plena do fluxo da vida, trazem grande paz e serenidade que cresce. Vivenciar cada instante é o caminho de quem escolhe viver de acordo com a impermanência, a verdade, a vida.
Por Fabio Balota
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