


Entre o Ceticismo Moderno e Gnosticismo
Transformado em dogma, o cientificismo assumiu o papel que antes era das velhas ortodoxias religiosas. Nele, tudo aquilo que não passa pelos critérios de medição empírica é descartado, relegado ao campo das ilusões, das crenças infundadas, das superstições, das fantasias.
O método científico de investigação fenomenológica da realidade, do observável, do quantificável, é útil no seu lugar e tem trazido grandes avanços para humanidade. Mas quando quer sair de seus limites metodológicos e emitir juízos sobre domínios que não lhe pertencem, acaba cometendo erros de categoria ou caindo em reducionismos.
As coisas espirituais não são fenômenos materiais. Os métodos científicos nem sempre são suficientes para se compreender a totalidade do real. Nem sempre se tem um fenômeno observável por instrumentos externos.
Da mesma forma que existe um condicionamento religioso que se fecha ao novo, ao questionamento, à investigação, há também um condicionamento cientificista, que se fecha ao mistério, ao invisível, ao que escapa aos instrumentos. Ambos carregam a necessidade de controle, a recusa em aceitar que há dimensões da realidade que não cabem nos conceitos da mente discursiva, dualista.
Da mesma forma que existem crenças religiosas, existem crenças cientificista, crenças materialistas. No passado se tomou uma ideia religiosa como a única correta e todo o resto como errado, herético, pecaminoso. Hoje se toma um conjunto de crenças cientificista e materialistas como verdade absoluta e se julga todas as demais crenças como erradas, fantasiosas, ignorantes. As pessoas aceitam esse condicionamento sem o mínimo de questionamento, acreditam que conhecem a verdade e veem os religiosos como tontos.
O inquisidor moderno não empunha mais espadas nem acende fogueiras; hoje, ele veste a capa do cientificismo, e suas armas são a ridicularização, o escárnio, a desqualificação, o cancelamento. A pena já não é a morte física, mas a morte simbólica: o silenciamento, a expulsão do debate, a condenação ao descrédito. Suas fogueiras são acesas nas redes sociais, na mídia.
A mente dualista sempre se polariza para um lado ou para o outro. Todos são céticos para uma coisa e crentes em outras. Mas todos acham que percebem melhor a realidade e que os outros estão errados. Muitos que se julgam livres de dogmas, mas vivem presos a uma visão de mundo tão rígida quanto qualquer visão fundamentalista.
A sociedade moderna promete felicidade, realização, mas a realidade é que as pessoas estão sofrendo cada vez mais, estão ansiosas, deprimidas, esgotadas.
O gnosticismo não se coloca como mais um sistema de crenças, ele sugere um caminho de investigação. Por natureza, os gnósticos sempre foram céticos. Mas não um ceticismo destrutivo, corrosivo. Os gnósticos recusam as verdades impostas, desconfiam tanto dos dogmas religiosos quanto dos dogmas científicos.
Os gnósticos não tomam como verdade aquilo que é dito, nem por mestres, nem por escrituras, nem por tradições. Tão pouco aceitam as negações daqueles que não possuem nenhum tipo de experiência das realidades espirituais.
Não há nenhuma exigência de crença em um caminho gnóstico. Há, sim, para que nos tornemos investigadores dos mistérios da vida, da realidade, de nós mesmos, um convite para nos liberarmos dos condicionamentos impostos pela sociedade, pela ciência, pela religião. Há, sim, um convite para o processo de autoconhecimento, de autodescobrimento, de descobrimento do real.
O espírito científico é a abertura, a investigação, a suspensão do julgamento até que verdade sobre algo se revele. As certezas são limitantes, sejam elas científicas ou religiosas, por isso, é preciso manter uma grande abertura para o real, permitindo que os mistérios, o sagrado, o belo, se revele. Deste modo, a atitude gnóstica é uma atitude científica.
Embora existam teorias, modelos e conceitos, eles não são um fim em si mesmos, O objetivo é sempre abrir a mente para outras possibilidades, dinamizando a percepção direta.
O gnóstico não tem interesse em discutir sobre o espiritual, pois a própria discussão revela confusão. É preciso experimentar e trocar percepções para que se tenha clareza, lucidez, visando a ampliação, o desenvolvimento e evitando a fantasia, a fascinação.
A separação entre ciência e espiritualidade é uma construção da mente dualista. Atualmente, muitas práticas espirituais estão sendo estudadas pela ciência, que tem reconhecido seus resultados e benefícios. Algumas práticas já estão sendo introduzidas nos sistemas de saúde como práticas integrativas e complementares. Os espiritualistas devem acolher as descobertas científicas, utilizando-as para aprofundar a compreensão dos fenômenos que vivenciam. Assim como a ciência deve se abrir para o espiritual, ao transcendente, reconhecendo que a experiência subjetiva e a transformação interna são aspectos legítimos da experiência humana.
O diálogo entre ciência e espiritualidade é possível e necessário. Mas para que haja diálogo, nenhuma das partes deve querer dominar, convencer, negar, desqualificar ou ridicularizar, a outra. São dois modos distintos de conhecimento que podem se enriquecer mutuamente. Tudo deve ser investigado de forma aberta e sincera, sem que ninguém queira apenas montar esquemas para validar suas próprias ideias. O único interesse deve ser a verdade.
Por Fabio Balota
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